terça-feira, junho 07, 2005

Uma maçã sabe melhor quando eu a descasco

Querem que eu vos diga uma coisa? Estou farta, farta de ver o nosso país como está, farta que me digam que não tenho futuro, que não há dinheiro, que o país está e continuará em crise, farta de ver um país sem condições, a arder, farta das queixas diárias de quem trabalha e de quem não faz nenhum, farta de quem exige dos outros e não exige de si próprio... A culpa é sempre dos políticos que nos governam, dizem. Sim senhor! Aí está uma boa maneira de delegarmos responsabilidades. Não que eu não concorde relativamente ao direito que temos a nos manifestarmos contra palavras e acções que nos prejudicam e com os quais não concordamos, mas, a verdade é que, presentemente, o povo português não sabe fazer mais nada que não queixar-se. Como diz e muito bem a conhecida personagem do Gato fedorento: « Falam, falam...» e o resto, sabem vocês muito bem. Pois, e se agissem? Não é agir no sentido de fazer greves e manifestações, mas sim de agir no dia-a-dia, ajudando este país e tornando-o mais produtivo.
Em geral, as pessoas só querem um trabalhinho fixo, que não exija muito, com o menor número de horas possível e, se tal não acontecer, trabalha-se menos. Exigem-se menos horas, aumento dos ordenados mas depois passa-se o dia a fazer muito pouco e a queixar-se, claro. Este é o retrato da situação do Fonseca que pergunta ao Fonseca: «Fonseca, diga-me lá o que se faz nesta empresa?» A resposta é… zero.
Sinto-me desiludida! Já não há gosto pelo trabalho, já não há valorização do trabalho. Quer-se é dinheirinho no final do mês para se comprar o top que a outra também tem e fazer umas fériazinhas no estrangeiro. Poupa-se no necessário e gasta-se no acessório.
Quantas pessoas já não repetiram esta lenga-lenga vezes sem conta! Eu sei disso, mas, nessa altura, eu não fazia parte dessas pessoas.
Por uns bons anitos ainda consegui evitar que qualquer má notícia sobre o nosso país me afectasse, era indiferente a tudo, mas, agora, não sei que por artes mágicas, infeliz ou felizmente, estou cada vez mais consciência de tudo. Sinto-me verdadeiramente frustrada...


Aquilo que verdadeiramente quero da vida é para mim própria, obviamente. Quero ter estabilidade, trabalho e dinheiro suficiente (como todos) mas, acima de tudo, quero ter gosto no que faço e ser útil aos outros e ao país. Sem isso, o sucesso não sabe a nada.
Eu adoro estudar, adoro trabalhar, esforçar-me não é sacrifício, sinto-me mais viva. Sei quando é preciso levar as coisas a sério e quando é altura para brincar. Mas eu olho à minha volta e só vejo conformismo, desmotivação, só se quer é boa vida e mesmo até, quando trabalhamos naquilo que sempre desejámos, tornamos as tarefas num frete, um longo e árduo de dia de trabalho que se repete continuamente. Mas que raio de vida é esta?! Perdeu-se mesmo o espírito todo, arranjam-se as mais pequenas desculpas para evitarmos o trabalho.
Por estas razões, sinto-me isolada, quase como que rodeada de seres inertes, indiferentes a tudo, que não sabem o que é ser responsável, o que é cumprir regras. Nada disso tem de ser aborrecido. Pessoalmente, é algo necessário e que cada vez menos há. As nossas crianças fazem o que querem, não há ordem, não há respeito, não há disciplina, tudo porque nós as educamos assim. Se não exigimos de nós próprios como poderemos exigir dos outros.
Sejamos um exemplo, esforcemo-nos mais, procuremos dar mais a nós, aos outros e ao país.
Da minha parte, só desejo ver mais apoio e vontade em todos e não sentir que estou a puxar sozinha uma carruagem demasiado pesada para mim. Sei que, no futuro, procurarei trabalhar com gosto, como sempre fiz, e ser útil ao país, pegando nas gerações vindouras e incutir-lhes aquilo que muito poucos de nós possuem: valorização do trabalho, disciplina e o gosto por todas as coisas. Utopia? Talvez. Mas mais vale tentar do que ficar sentada à espera.

2 Comments:

At 12:42 a.m., Anonymous Anónimo said...

Infelizmente...aquela velha máxima...'Se não os consegues vencer...junta-te a eles!' ganha cada vez mais força e acaba por ser um ciclo vicioso que não é de agora...mas que é fácil de entrar.
Se é verdade que nós gostamos muito de nos fazermos de coitadinhos...tb é verdade que os exemplos que tivemos...temos não são os melhores, o que ajuda e muito para um 'que se f***!' Enfim...quando se diz 'ele é que é esperto ...fartou-se de ganhar dinheiro!'...e pior...é uma frase...demasiadamente usada, é meio caminho andado..para 'tambem vou tentar fazer o mesmo!'
Voltando ao inicio...ou ficas 'maluca' ou então tentas ser 'normal', a maioria, infelizmente...tenta ter, supostamente...uma vida 'normal'.

 
At 2:09 a.m., Blogger AGF said...

Moça, estamos aqui para a luta.

Só nos resta brincar com as situações, como fazem os Gato Fedorento, e as pessoas sentindo-se gozadas acabam por mudar.
Já reparaste que nunca ninguém diz, eu sou assim, dizem sempre os portugueses são assim: tal, tal e tal... é de supor que a pessoa que está a falar não seja portuguesa, mas nós compreendemos o seu português. É então que alguma coisa está mal. Agora todagente quer fazer rir os outros, mas ninguém quer ser a vitima do riso.

É por isso que eu gosto de brincar.

E já agora, remédio para essa desilusão toda, nada melhor que Jelly-Jah.

 

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